Não desejo para ninguém

Me disseram que eu fui uma criança comportada, compenetrada que foi desaprendendo com o passar da vida. Meus familiares me contam que eu era extremamente organizada. Por exemplo, quando eu brincava com os meus amigos no parquinho, na hora de ir embora, pegava cada brinquedo meu, inclusive os que eu havia emprestado para os meus amigos, e guardava na sacola sem preocupação. Tanto é que, quando eu chegava no parquinho, as babás das outras crianças falavam "lá vem ela!". Acho que confundiam posse, imediatismo, com organização. Porque, eu não sou extremamente organizada, eu faço muita bagunça e tenho dificuldade em manter as coisas arrumadas, mas se alguém me fala "Vamos ali", "Vamos embora", "Me faz um favor" ou, quando o assunto é trabalho, eu costumo ser bastante imediata e direta. Acho que no caso do parquinho, era mais um mix de posse com produtividade.

O fato é que, na minha adolescência, eu deixei de ser essa "pessoa organizada" e fiquei avoadíssima, acredito que por conta da infinitude de coisas que acontecem nessa fase da vida. Por conta da minha ansiedade inerente, que nasceu comigo, mas que se atenuou nesta época, eu perdia muita coisa! Roupa, bijuteria, celular...

Eu perdi algumas vezes o celular na adolescência/início da juventude. Vocês não imaginam como eu sofria por perder minhas coisas! (Pelo menos eu nunca fui para escola sem a mochila, como o meu irmão, rs). Quando eu perdia algo como um celular, meus pais ficavam decepcionados comigo! E eu mais ainda. Afinal, eles haviam me dado com esforço e carinho e eu perdia por desatenção ou mesmo por não valorizar algo que chegava para mim sem suor meu, mas do meus pais.

Perder o celular é um sofrimento pessoal e intransferível.

Depois que eu perdi meu celular com 16 anos, um motorola v3 rosinha perfeito, em uma festinha de quinze anos, eu demorei uns 5 anos para perder outro. Dessa vez, um iphone. Na verdade, eu fui roubada em uma festa. Roubaram a minha bolsa inteira no Jockey, com diário, celular, casaco, perfume,... Foi na época da facul, eu andava com a casa nas costas.

Esse dia eu me dei conta da solidão que é perder o celular nos dias de hoje. Por que nossa vida inteira está neles. E ninguém, NINGUÉM, vai sofrer mais que você pela perda. No momento em que acontece, ninguém vai sentir mais do que você mesmo e ninguém vai querer mais encontrar, fazer uma "Busca Iphone" do que você. Ainda mais se todo mundo estiver meio bêbado. Depois da perda, a festa acaba só para você, o prejuízo é só seu.

É por isso que, quando alguém perde o celular na minha frente, eu me compadeço, mas sigo a noite sem peso.

Esse último final de semana foi a amiga paulista de um amigo nosso no bloco. Quando senti cheiro de furto, eu e um amigo abraçamos nossos pertences na multidão. Quando saímos do bolo de gente, a paulista gritou, em um susto: "Meu, roubaram meu celular!". O Ivan, que tinha trazido elas, se deu por vencido e queria ir embora do rolê, eu virei pra ele e falei: "Amor, quem perdeu o celular foi elas, eu que não vou acabar a noite aqui." Daí nós fomos para a outra quadra, de taxi, com medo de sermos assaltados, e o taxista nem quis cobrar a corrida. Foi só mais uma noite normal no Hell de Janeiro. Seguimos.

12 visualizações

Posts recentes

Ver tudo

SinCRONICIDADE

Borboleteando, o projeto que você está procurando também está procurando por você. Não é atoa que, depois de lançar meu livro, e receber do meu pai uma pilha de livros solicitando que eu continue a es

Quando eu o conheci

Quando você passa muito tempo sozinho, você passa a entrar em um ritmo interno seu. Esse ritmo inclui certo egoísmo porque a habilidade de abrir espaço para uma segunda pessoa, também fica escassa. Ma

CONTATO

  • White YouTube Icon
  • White Snapchat Icon
  • White Instagram Icon
  • White Twitter Icon
  • White Facebook Icon

PARA CONTATOS PROFISSIONAIS

bem-vindxs

© 2020 Julia Oristanio. TODOS DIREITOS RESERVADOS

0