Vini


Como de costume, aos domingos, dou aula de yoga as dez da manhã no Bossa Nova Mall pela SulamericaParadiso. As aulas costumam ficar cheias e eu vou andando da Cinelândia até o shopping, que é dentro do terreno do aeroporto Santos Dumont e, na volta, eu ando mais um pouco, atravesso a praça Paris e entro no metro da glória. Esse domingo, a rua ainda estava cheia de uma rebarba de blocos e, de quebra, é dia da nossa maravilhosa feira da glória que deve ser uma das melhores que tem pelas redondezas porque oferece, desde música, forró, samba, à produtos veganos, cosméticos, cachaças, roupas, folhas sagradas, sem falar no famosíssimo Japa e no shopping chão cheio de peças vintage baphos. Eu sempre passo por dentro dela durante a minha caminhada de volta. Hoje, quando eu comecei a entrar na feira, atravessando a rua, de um bar na Gloria em direção ao aterro, encontrei com um amigo, o Vinicius, que eu conheci num trabalho que a gente fez pra uma marca de sapatos em meados de 2013. Naquela época, eu tava me introduzindo no role e comecei a pegar meus primeiros carnavais insanos e lembro que comecei a vê-lo direto na noite, além dele ser muito bom no que faz, styling, e continuei acompanhando seu trabalho pelas redes. Quando eu o vi atravessando a rua, logo gritei e corri para abraçá-lo. Veio um morador de rua e pediu dinheiro para ele e ele respondeu que só tinha amor para dar, num gesto gentil. Em seguida, chegou um outro cara falando para eu soltá-lo, pois, meu amigo, o Vinicius, portava o vírus do HIV. Eu notei, de um ano pra cá, também pela internet, que ele estava fazendo uma performance sobre HIV e, achei a brincadeira de mau gosto, aquele cara falar aquilo, não sabia quem era, mas logo descobri que, estranhamente, era um amigo do Vinicius fazendo uma brincadeira sem graça. Constrangida, porém à vontade, o perguntei “Vini, isso é verdade? Eu vi nas redes, mas não quis perguntar”. Ele me respondeu “Você já SE perguntou? Todo mundo transa sem camisinha, mana. E eu não tenho a doença AIDS, tenho o vírus”.

A euforia do bloco que logo começaria o levou de mim, como uma corrente de vento, que passa, fria, mas intensa e presente. Começou uma chuva fina e eu perguntei “Está morando no Rio?”, sua amiga o pegava pelo braço, e ele “Em São Paulo, vai me visitar”, e foi indo dizendo “Tô loka mana”, o que me arrancou um sorriso e me deu vontade de ir com eles e me jogar no carnaval, “A vida é uma só”, pensei. E continuei andando, úmida, modificada por esse encontro, deixando a chuva me modificar também. Perplexa da minha ignorância, consciente de que ignoramos aquilo que não nos compete, elucidei-me de um fato que desconhecia. “Ele tem o vírus, não a doença, está em latência.”, a frase “todos nós transamos sem camisinha” continuou ecoando em mim durante a caminhada. O Vinicius é um homem lindo. E estava indo curtir. Descobriu cedo o vírus e conseguiu tratar. Na sua performance ele diz que Indetectável é igual a Intransmissível. E atenta para a importância de fazer esses exames periodicamente. Vinicius não foi vencido pela doença, se expôs, transformou o veneno em remédio e, Karma, em missão, em arte, levando informação sobre o virus e desmistificando um tabu até hoje, a AIDS. Eu tenho muito orgulho dele.

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